sexta-feira, 4 de março de 2016

Sou uma apreciadora de detalhes. 

Há detalhes lindos que se guardam algures cá dentro e que se recordam como se estivessem envoltos numa moldura emocional.

Noto que se tem tornado cada vez mais difícil representar mentalmente detalhes, agora registo sobretudo a sensação geral de um momento, do outro, de mim. Como se fosse uma pintura abstracta, esbatida, onde não se distinguem limites. um Monet. Esta ausência do compartimentar as emoções, como se deixássemos de ser um coleccionador de selos para passar a enviar e receber cartas e desfrutar simplesmente do selo presente, abre espaço para que a vida se instale.

Os pormenores que se desembrulham, quais presentes, diante dos nossos olhos a pedir: apreciem-me, regozijem-se com a minha beleza, ou falta dela.

Os lábios que se afastam da pequena falha de uma chávena de café, acomodando-se na superfície intacta; as gotas de água que se aglomeraram num mosaico, escorridas de um guarda-chuva que descansa a um canto; os cabelos que se vão organizando em volta dos dentes da escova de pentear, a cada passagem, permitindo-se em conjunto alcançar o desemaranhar; o relevo das rugas de uma colcha de cama, que assinala uma presença que ali encontrou lugar e depois partiu; a mão que escreve este texto e arrefece e, fria, se junta de vez em quando à outra mão - o contraste - uma quente, outra fria.

O reverso da medalha de se ter uma pele psíquica mais forte: menor intensidade. menor susceptibilidade. menor sensibilidade. menor atenção ao detalhe.